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Dez séries ilustrativas de desenhos e relatos PDF Imprimir E-mail
José Maria Martins   

Obviamente, nem sempre há grandes traumas e dramas como os relatados nas três histórias. Apesar de muito freqüentes, mais do que pode imaginar quem não tenha acesso direto a essa realidade, o mais comum é as pessoas terem vivido uma série de pequenos traumas e mini-dramas particulares cuja somatória, entretanto, costuma ter um efeito final equivalente ao dos grandes traumas. É o pequeno massacre do cotidiano: as humilhações, opressões, desapontamentos e violências psicológicas e sociais tão presentes na vida em nossa sociedade contemporânea, começando na família e continuando com a ampliação do processo de socialização. O efeito negativo das várias situações estressantes acaba se somando para constituir a carga alostática.

De certa forma, os desenhos e relatos falam por si. Pode-se deduzir a história viva por trás de cada uma das séries. Há desenhos pesados, suaves, fortes, muito ou pouco coloridos, desajeitados, fragmentados, integrados, harmoniosos, etc. Todos entretanto expressam a essência do que a pessoa viveu emocionalmente e refletem as mudanças ocorridas com a utilização do MAE em seqüência.

Foram selecionadas 10 séries, cada uma com quatro desenhos e relatos, representativos das experiências iniciais e finais de uma mesma pessoa. Os primeiros desenhos costumam ser comuns, muito carregados ou muito esmaecidos, fragmentados, freqüentemente desarmônicos. Gradativamente vão se tornando mais originais, harmônicos, integrados, suaves e equilibrados. Este é o padrão usual, evidente na maioria das séries, das quais as seguintes são apenas uma amostra mínima.

Certamente, nem todos os processos transcorrem com tal fluidez e progresso contínuos. Há pessoas que avançam e recuam, que desistem no meio, que param por meses antes de encontrar disposição para ir até o fim, que racionalizam seus receios, etc. Como em qualquer forma de psicoterapia ou qualquer processo de transformação psicológica, são muitos os obstáculos e dificuldades, que exigem dedicação e uma atuação especializada para a superação das resistências naturais. Mas estas séries, como as três histórias, representam com fidelidade o que acontece com as pessoas que, apesar das dificuldades, lançam-se plenamente na experiência e vão até o final.

A transcrição dos relatos foi feita literalmente. Os nomes, todos fictícios, foram utilizados para indicar o sexo e para facilitar a descrição. As idades são corretas e as profissões escolhidas estão próximas das reais.
Apesar de sucintos, os relatos deixam transparecer com nitidez a qualidade e intensidade emocional, bem como o sentido do vivido naquelas horas. Tomados em conjunto, desenhos e relatos se complementam para fornecer uma informação precisa sobre certos aspectos únicos do processo de restauração.

O objetivo ao apresentar essas séries é propiciar uma amostra da qualidade e riqueza das experiências e, principalmente, a demonstração da mudança progressiva. Foram selecionadas séries que exemplificam diversas categorias de experiências: traumas, dificuldades de relacionamento, confronto com o nascimento, com a sexualidade e com a morte, perdas, frustrações, humilhações, experiências filosóficas e religiosas etc. Muitas pessoas fazem um relato quase telegráfico enquanto outras se destacam pela expressão escrita mais detalhada.

Série 1 – Flávia, 32 anos, arquiteta
Série 2 – Márcia, 37 anos, atriz
Série 3 – Maurício, 27, gerente de banco
Série 4 – Gilda, 28 anos, veterinária
Série 5 – Cristina, 45 anos, professora
Série 6 – Marina, 25 anos, comerciante
Série 7 – Heleno, 26 anos, marceneiro
Série 8 – Marlene, 28 anos, enfermeira
Série 9 – João Pedro, 21 anos, estudante
Série 10– Daniela, 30 anos, decoradora


Série 1 – Flávia, 32 anos, arquiteta


R. Primeira experiência
R. Terceira experiência
Sensações físicas como dormências e tensões nos membros. Dor no peito e nos ombros.
Remorso, vontade de gritar, bater, chorar, urrar. Três fases pelo menos. A primeira instantânea, depois muito sofrimento e depois desafogo.
Melhor no final, com a respiração suave.
Dormências nas mãos e braços com sensação de estar flutuando no ar. Depois frio e sonolência. Novamente um processo de lembranças vivas, intrigantes porque nunca deveriam acontecer e aconteceram. Tristeza por estar sempre magoando as pessoas que mais amo. Necessidade de compreender e acreditar nas pessoas.
R. Sétima experiência R. Nona experiência

Nascimento de risos, fingidos risos da alegria, porque não é bom nascer para ser o que não se é.

Um tempo qualquer, um espaço que não sei qual é. De dor, sentimento de muita dor moral. Muito longe do momento atual. Também de raiva e frustração. Mágoas com choros e gritos. Meu corpo não dói, mas pede para mexer, rolar, enroscar, como se chamasse alguma emoção contida. E aí a coisa rola..

Sonhos me levaram ao país dos sonhos que há muito não habita em mim. Foi bonito. Eu vi minha vida tranqüilamente e só não admiti a solidão. A energia fluiu, dores leves surgiram mas logo se foram. Estou ótima.


Série 2 – Márcia, 37 anos, atriz


R. Primeira experiência
R. Terceira experiência
Vivência do prazer mais difícil de ser aprofundada do que a dor.Lembrança do dia em que eu dormia aos 7 anos e tinha um sonho de infinito muito prazeroso, tanto que eu adorava ir dormir para sonhar de novo. Uma noite fui acordada no meio do sonho por minha mãe para apanhar.Ela me bateu tanto a cabeça contra a parede que tive medo de morrer.

Me lembro também que eu mesma me vi de fora, como se estivesse fora do meu corpo e fosse duas pessoas. Minha irmã presenciava a cena chorando com medo de me perder.
Sensação de que posso ir com minhas próprias pernas, minhas asas. Engraçado, passar de serpente a pássaro, sem temer ser nem um nem outro. No início me permiti ser eu mesma. Ter raiva. Serpente? Felina? Aí surgiu uma luz e comecei a tomar impulso para voar. E aquele antigo sonho renascia dentro de mim. O veneno se transformava em magia de poder. Me lancei no espaço. Até que eu mesma me interrompi. Tive raiva. De mim. Vontade de bater minha cabeça. O velho hábito. Destruir a mãe introjetada - única forma de sobrevivência.
R. Sétima experiência R. Décima experiência

De novo, a sensação, de que era possível transmutar, por mim mesma.

Amor. Paz.

Poucos pensamentos. Energia indo e vindo. Vontade de sacudir o corpo e mandar todo o lixo pelos ares. Cores se condensando em músicas.



Série 3 – Maurício, 27, gerente de banco


R. Primeira experiência
R. Terceira experiência
Enrijecimento dos músculos dos braços e mãos e no tórax. Tensão insuportável. Balbuciei alguns palavrões mas não adiantou. Levantei-me e bati de frente com murros na almofada. Senti-me preso, como que uma pedra.

Nenhuma lembrança ou outro sentimento forte. Terminei mais relaxado
Raiva
Medo
Ódio
Vingança
Solidão

R. Sétima experiência R. Décima experiência

Visões variadas. Tristeza, depois alegria. Sensação de leveza e transporte do corpo. Fusão na luz, imagens de energia e de formas soltas no espaço.

Sensação de liberdade tranqüilidade, leveza. Imagens mentais muito agradáveis.



Série 4 – Gilda, 28 anos, veterinária


R. Primeira experiência
R. Terceira experiência
Em vermelho, o cavalo esquartejado de um sonho; era selvagem, bonito, triste. Gritos: merda, merda. Lembranças de retração no corpo.

Fracasso, contenção, lamento, dissolução, apodrecimento, reajuntamento.
Raiva
Pesar
Solidão
Solidariedade

R. Sétima experiência R. Décima experiência

A velha tristeza quase abafa a leveza. Um pouco mais e os pensamentos se esborracham. Desse modo, quem sabe não surge uma razão, a motivação...
Tristeza, lamentação, desamor
Pai, finalmente.
Chagas.

Os pássaros assumem a dimensão do humano. Os homens alcançam a riqueza dos pássaros e os cheiros se espalham, se misturam. Há apenas um pequeno espaço para cada um, mas é imenso o universo de todos. A integração é possível e fascina. Botei uma força nas raízes e limpei a maioria das chagas. Hoje, dança! Prazer, amor próprio, integração, plenitude, alegria.



Série 5 – Cristina, 45 anos, professora


R. Primeira experiência
R. Segunda experiência

Morte

Nascimento
R. Terceira experiência R. Quarta experiência

Crescimento
Compreensão

Fusão
Integração
Energia




Série 6 – Marina, 25 anos, comerciante


R. Primeira experiência
R. Terceira experiência

Nojo da falta de generosidade, minha e dos outros
Muita raiva
Morte de algumas partes de mim
Vida para outras características

Lembranças da infância e junto uma angústia que me fez chorar. Lembrei-me de várias separações, como quando fui para a escola e fiquei sem minha mãe Vi a relação com meus problemas na área de afetividade.
R. Sétima experiência R. Décima Primeira experiência

Tensão e dor nas mãos
Senti muito medo do meu pai
Senti vontade de esmurrá-lo, mas eu não consegui porque o medo invadia a raiva
Eu não conseguia parar de chorar de tanto medo.

Luta do eu com ele mesmo. Depois que consegui botar a raiva para fora, sensação gostosa de liberdade, integração, força, peito aberto. Choro leve. A música me levou Alegria de saber que posso escolher. Paz. Foi bom.

Série 7 – Heleno, 26 anos, marceneiro


R. Primeira experiência
R. Quarta experiência

Solidão – tristeza – raiva de mim – dor – medo – pela primeira vez senti medo da morte.
Necessidade de carinho.
Recordei o momento em que estava no Pronto Socorro quando tentei o suicídio – senti muito frio.

Cabeça sem corpo – sem saída?
Cabeça explode! É preciso deixar saírem os sentimentos, as emoções presas, as palavras. E conviver mais, buscar mais, renovar, sem os medos criados pela mente.
R. Décima experiência R. Décima Oitava experiência

O processo teve idas e voltas. Explosão de raiva contida. Ainda aos pedaços, mas mais suave.
Choro (necessito chorar) – simples vontade.
Sempre senti a ternura dentro de mim.

Senti uma sensação de liberdade. Graça da vida – vale a pena apesar de tudo - tenho motivo para....
Flutuando para o fim (finalidade) da vida. Não sei o quê, mas é bom.




Série 8 – Marlene, 28 anos, enfermeira


R. Primeira experiência
R. Terceira experiência

Senti muita raiva mas não soube expressar. Ciúme do meu irmão. Foi muito difícil entender as sensações, as emoções, como se eu fosse uma criança de um ano e meio ou dois, não tendo o carinho de minha mãe. Muita vontade de morder.

Vivenciei alguns sentimentos relacionados aos meus 2 anos de idade.
Entrei em contato com 2 faces minhas.
As várias ondas de emoção ligadas a sentimentos de tristeza, de amor, de abandono, de ameaças e de incômodo. Ao mesmo tempo felicidade por tudo estar tão claro e leve.
R. Sétima experiência R. Oitava experiência

Eu vivi a ambigüidade. Para que eu me aposse de minha força, é necessário que eu aceite o vermelho* – os opostos. E eu ainda reluto nisso.
* Vermelho: cor que me era muito negativa.

No caos do dia a dia consigo ver a ordem, no profano...o divino
No amanhecer...o começo
Na luz... a vida..
Oh! Esse amor infinito, sem amado e sem amante! Oh! Esse mundo pleno que toma conta de mim e existe dentro de mim... É bom retornar... só assim sinto-me inteira.... só assim o sem-sentido faz sentido... EXISTO só assim!




Série 9 – João Pedro, 21 anos, estudante


R. Primeira experiência
R. Terceira experiência
1º momento - raiva, ódio, sofrimento terrível: agressividade – castigo / vontade de maltratar / carência afetiva
2º momento – sentimento de paz, mas constantemente ameaçado: sombras tenebrosas / sensação de aconchego.
Falta de ar
Sou um adolescente e num deserto
Ódio profundo e absoluto (que bom!)
As pessoas me pedem a verdade, mas se assustam com ela, enquanto mentem pra mim
R. Sétima experiência R. Décima experiência

O desconhecido é uma coisa aterradora. Sair do que conheço e controlo, pelo menos tento (penso), meter a cara, ir de peito aberto. Mas todas essas coisas que aprendi e aceitei como reais, verdades, certezas, legais, perdem o sentido...
Mas o que é real? O que é certo? O que é tudo isso que nos controla e nos condiciona?
E eu o que sou? O que realmente posso?
Qual é o limite que separa o real da fantasia? E eu, serei também real? Afastar-me do meio e sacar de fora?! E como é isso? É tão mais fácil não ver, não questionar não sentir, fugir, se robotizar, vegetar! Será que saio desta?

Medo, mas louca vontade de fluir, arrebentar as estruturas já prontas e erguer as minhas........
SER.
Sensação de certeza, bem estar, alegria.
Muita vontade de rir e de dançar.




Série 10 – Daniela, 30 anos, decoradora


R. Primeira experiência
R. Terceira experiência
Experiência confusa. Terminei com uma sensação esquisita. Estava emburrada como se não reconhecesse nem o lugar, nem as pessoas. E mais, como se não quisesse estar aqui no mundo e a culpa fosse de vocês. Fiquei num limite entre lá e cá. Virei várias personagens; não sei se era eu. Muitas imagens. Vi a cor lilás o tempo todo. Tinha um limite preto, móvel, mas sempre lá. Tem alguma coisa que eu preciso ver mas não sei o que é. Estou beirando.
Tensão na base do crânio, difícil de soltar. O peso da responsabilidade, manter a cabeça erguida, superar os motivos do corpo, o cansaço. Soltou.
Descansei. Ótimo!
Depois entrei numa “viagem” mental. Encontrei pessoas conhecidas, consolo e cuidado. Foi muito bom. Muitas cores e muita suavidade. Leveza.
R. Sétima experiência R. Décima experiência

Percepção das tensões, já conhecidas, no corpo, a minha divisão e a racionalidade interferindo.
No final senti um grande torpor e me deixei afundar num estado ótimo. Voltei mal humorada e continuo com raiva, raiva, raiva, ódio, ódio, raiva, ódio, raiva.....

Tensão e desconforto no corpo e nas juntas.Movimentos diversos até soltar.
Percepção do corpo e sentidos aguçados.
Integração, calma, amplitude, felicidade, concretude, soltura.
Depois a a música “Masks” entrou pelos meus ouvidos e me pegou. Entrei num estado que não dá para contar. Ótimo.
Só sensações agradáveis. Cadê as ruins?