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Para que servem as emoções? PDF Imprimir E-mail
José Maria Martins   

Uma das principais funções da emoção é conectar nossa natureza animal com o mundo em que ela está imersa. As emoções respondem imediatamente à verdade das coisas. Elas são a forma mais alerta de atenção. O nojo repele o podre, o medo avisa sobre o perigo, a admiração identifica a beleza e a compaixão responde à necessidade.(James Hillman)


Os olhos servem para ver, os ouvidos para ouvir, a boca para falar. Tudo no organismo tem uma função. Não existe inutilidade em biologia. Se o organismo produz milhões de espermatozóides em cada ciclo biológico é porque milhões são necessários para se ter certeza que um atingirá o alvo. Tampouco existe desperdício. Numa floresta, tudo que chega ao chão acaba sendo comido ou usado de alguma outra forma.


Assim também é na biologia de nossas respostas emocionais às várias situações vitais. As emoções têm funções cruciais para nossa sobrevivência. O corpo responde com batimentos cardíacos rápidos, suor, tensão muscular e outras reações fisiológicas por um motivo. Se a raiva, por exemplo, não tivesse um propósito biológico, nós viveríamos sempre calmos. Se a tristeza não tivesse um propósito biológico, nós nunca derramaríamos uma lágrima. O mesmo se aplica ao medo e à alegria. Por que motivo nós ficamos tristes, com raiva, com medo, desesperados? Quais seriam esses propósitos? Em que estas emoções nos servem? Compreender os propósitos, as funções das emoções, pode nos ajudar a entender o que é a “saúde” emocional e como mantê-la ou recuperá-la. E a saúde física, como cada vez se torna mais evidente nas ciências biológicas e psicológicas, depende em grande parte do equilíbrio emocional.


Tomemos como exemplo a tristeza (ou o pesar). É uma resposta a uma perda de algo ou de alguém. Está ligada a um evento que já ocorreu ou que pode ser imaginado como já tendo ocorrido (por exemplo, uma pessoa que você ama está partindo amanhã e você já pode sentir como será sua ausência). Neste sentido, o pesar está sempre ligado ao passado.
Por que sentimos tristeza, luto, pesar? Qual será o propósito da sensação de peso, do choro, dos tremores que acompanham essas emoções? Tente pensar nos resultados de um bom choro, ou da quietude e descanso que acompanham a tristeza. A maioria das pessoas, depois de um período de tristeza e pesar intensos, fica com uma sensação de alívio, de limpeza, de um novo espaço em suas vidas, de ter se desprendido de algo. Este é um dos propósitos dessa emoção: ajudar-nos a deixar ir o que já perdemos, o que já acabou e abrir espaço para novo crescimento, novas pessoas, novas coisas. Ela também nos predispõe a descansar, a recuperar as energias, da mesma forma que descansaríamos e nos recuperaríamos em seguida a um ferimento físico. Após sua expressão adequada, entregamos o passado ao passado e nos movemos para o presente, prontos e abertos para novas possibilidades. Por isso, Diadorim, personagem de Guimarães Rosa, diz: “Sofre, sofre depressa que é para as alegrias novas poderem vir logo”.


A tristeza e o pesar não expressados prendem-nos a um mundo irreal, que não existe mais, devoram-nos como a fome insaciável e, como todas as emoções não expressadas, podem facilitar o aparecimento de um câncer e de outras doenças físicas. Galeno, no século II, já tinha observado que mulheres melancólicas tinham maior possibilidade de desenvolver tumores. Vivenciando plenamente o pesar, admitimos nossas perdas para nós mesmos e para o mundo e vamos em frente com o resto de nossas vidas.
Assim, uma das funções da tristeza/pesar é renovação. É deixar o passado e se abrir para o que vem a seguir. Fisiologicamente completou-se um ciclo de processos de reequilíbrio desencadeados pelo sofrimento e o organismo está de novo preparado, sem nenhum entrave do passado, para novas experiências, quaisquer que sejam.


A tristeza tem também uma função adaptativa, que se manifesta na relação com os outros. Em intensidade pequena, ela desperta a empatia, provoca o cuidado, convida ao consolo e à ajuda por parte dos outros. Em intensidade maior, pode imobilizar a pessoa, muito provavelmente com a função de evitar a ocorrência de danos ou perdas maiores.


Agora imagine uma situação em que você sentiu muita raiva. Volte mentalmente a uma situação em que se sentiu injustiçado ou enganado, em que invadiram seu espaço ou em que você presenciou uma crueldade desnecessária. Tente lembrar-se das sensações em seu corpo.


Os punhos e os maxilares tendem a se fechar, há uma tensão geral nos ombros, braços e pernas, o corpo todo esquenta. É a raiva, que nos faz “ferver”, ter o desejo de bater em alguém, de destruir, de adquirir controle total sobre a situação, de mudar a qualquer custo aquilo que acreditamos estar errado.


E qual seria o propósito desta emoção intensa e violenta? Ela nos torna mais fortes, mobiliza toda nossa energia, cria em nós um impulso para a ação que visa superar um obstáculo.


A maioria de nós foi educada para não expressá-la, pelo menos não diante de alguém que pudesse voltar sua própria raiva contra nós. E todos já vimos, em demasia, a destrutividade e as conseqüências negativas de certos ataques de raiva descontrolada. Muitos já sentiram seus efeitos na própria pele. Mas também podemos nos lembrar de situações em que a raiva era justa e sua expressão adequada, em defesa de um direito ou de uma pessoa.


Mesmo no contexto das religiões tradicionais, que condenam explicitamente a violência, temos exemplos claros de expressões apropriadas de raiva: Moisés quebrando as tábuas da lei diante da infidelidade de seu povo, ou Jesus expulsando a chicotadas os vendilhões do templo. Gandhi na sua marcha determinada para o mar ou a luta contra os invasores nazistas na Europa são outros exemplos de raiva adequada. A raiva constitui um grande impulso para a ação e esse é seu propósito. A mudança social positiva, a proteção às crianças, a luta contra a miséria, contra o racismo e a exploração, todas têm parte de sua raiz na raiva justa. O desejo de modificar uma situação e de fazer justiça muitas vezes é alimentado pela raiva contra aquilo que consideramos injusto. Ela está ligada ao presente. Não é por acaso que se faz uma analogia da raiva com o fogo. Ele pode ser extremamente destrutivo, mas se usado apropriadamente é muito útil.


Temos, porém, que distinguir claramente entre duas espécies diferentes de raiva. A primeira é a raiva biológica, natural, compartilhada pelo homem com todos os outros animais. Constitui um impulso para atacar, filogeneticamente programado. Emerge em situações em que ocorre uma invasão de nosso espaço vital, em que nossos interesses vitais estão ameaçados. É claramente uma manifestação de defesa do organismo e é bom que ela exista para nos fortalecer diante da ameaça à nossa integridade. Ela é essencialmente benigna e cessa quando a ameaça deixa de existir.


É importante não confundi-la com a raiva que podemos chamar de acumulada ou distorcida, que leva à destrutividade e à crueldade e que emerge facilmente diante de qualquer questionamento da onipotência imaginária e compensatória de quem teve de se submeter a exigências arbitrárias e emocionalmente violentadoras em seu período formativo. Com freqüência, essa raiva inadequada manifesta-se exatamente porque houve uma interferência com aquela que era adequada, defensiva, natural, que não pôde ser expressada, muitas vezes por um longo período desde a infância. Ela é específica da espécie humana, não sendo encontrada nos animais. Não é filogeneticamente programada, nem biologicamente adaptativa. Examinaremos mais à frente os resultados de pesquisas que confirmam essa distinção entre os dois tipos de raiva.


Nas relações interpessoais, a raiva funciona também como um sinal, instintivamente reconhecido por todos, de que um ataque pode ocorrer. Sua função comunicativa é óbvia.


Agora examinemos o medo. Diferentemente da raiva e do pesar, ele está ligado ao futuro. É uma espécie de aviso sobre a possibilidade de alguma ameaça ao organismo. O medo nos prepara para fugir do perigo, real ou imaginado. Os primeiros estudiosos da psicofisiologia da emoção falavam da reação de luta e fuga, descrevendo em detalhes as modificações fisiológicas concomitantes ao medo: os músculos tensos, a respiração acelerada e superficial, o aumento dos batimentos cardíacos, o frio na boca do estômago, os ouvidos e os olhos abertos, alertas. Sentir medo é se preparar para algo que está prestes a acontecer.
A respiração e os batimentos cardíacos aumentados, o estado de alerta sensorial, a tensão muscular, nos deixam prontos para fugir. O fluxo de sangue diminui no rosto e dirige-se para os músculos da perna. Ficamos mais despertos, mais conscientes do ambiente em torno. Todas essas modificações nos preparam para enfrentar o perigo, para detectá-lo adequadamente, para eliminá-lo ou para fugir. Este é o propósito do medo. Não é raro ouvir-se que homem não deve ter medo. O medo é uma emoção desvalorizada socialmente, por motivos que examinaremos mais adiante. Sua função vital foi esquecida e tornou-se comum, para muitos homens, a tentativa de negar suas reações naturais de medo, resultando daí uma série de distorções e de conseqüências negativas.

Quando acontece de ele se tornar completamente paralisante, incapacitando-nos para uma ação adequada, já estamos diante de reações marcadas por traumas ou interferências anteriores. Nesses casos, não só o medo, mas qualquer outra emoção passa a ter um efeito desorganizador sobre a personalidade. O efeito paralisante do medo pode também ocorrer diante de um perigo avaliado como excessivo e que ultrapassa nossos limites de defesa. Nesse caso parece que estamos diante de uma reação biológica vestigial. Diante da visão do predador, muitas presas têm uma reação de congelamento. Assim não chamam atenção e terão talvez tempo para encontrar o caminho da fuga. É um último recurso que pode salvá-las. Essa é uma hipótese plausível para explicar a existência da paralisia pelo medo nos seres humanos.


O medo, então, é uma forma de lidarmos com o perigo, mas também constitui um sinal primário de submissão. Pode, portanto, evitar um ataque, na medida em que deixa claro para o outro que ele não vai ser atacado.


Já o sentimento de desprezo geralmente ocorre quando uma pessoa julga-se numa posição superior a outra, pelo menos em algum aspecto. Funciona organizando e sustentando a percepção da própria posição social e assinalando-a ao outro.
A vergonha e a timidez costumam ocorrer diante da constatação de que se é o foco de observação. Induzem a um comportamento que protege a pessoa contra uma maior violação de sua intimidade. Sinaliza ao outro uma necessidade de privacidade.


O sentimento de culpa emerge diante do reconhecimento de que se fez algo de errado. Induz ao desejo de reparação e produz uma postura submissa, que diminui a probabilidade de ataque contra quem a expressa.


Origem das emoções


Essas observações constituem apenas uma rápida amostra de alguns aspectos funcionais das emoções. Os exemplos anteriores foram lembrados para introduzir um princípio psicológico geral: não existem emoções inúteis ou negativas em si. Todas têm um propósito útil. Só depois de terem sido negadas, suprimidas ou distorcidas, é que terão um efeito desastroso a curto ou a longo prazo sobre nós mesmos e sobre aqueles que nos rodeiam. Só assim elas se transformam em negativas. A raiva não expressada transforma-se em ressentimento ou, se acompanhada de culpa, pode levar a uma depressão. O medo negado transforma-se facilmente em ansiedade crônica. A tristeza não vivida vira apatia. A afeição não manifestada deteriora-se em sentimentalismo.

Não devemos confundir esse conceito de negativo, que tem um significado de inútil ou prejudicial, com o outro, que se refere ao fato de certas emoções serem sentidas como desagradáveis. Mesmo estas que sentimos subjetivamente como desagradáveis (tristeza, medo, raiva, etc.) são úteis, têm uma função precisa.

Porque todos os seres humanos partilham a mesma biologia e partilharam o mesmo ambiente ancestral, eles desenvolveram um pequeno grupo de respostas às contingências ambientais com que se depararam em sua história evolucionária. As emoções básicas estão associadas com as respostas biológicas primitivas de nossa espécie aos problemas no ambiente que, de alguma forma, são considerados básicos ou de importância fundamental para a sobrevivência do organismo.

As reações emocionais desenvolveram-se aos poucos ao longo da evolução das espécies e aparecem em ordem crescente de complexidade nos animais, dos menos aos mais evoluídos. Elas constituem a melhor resposta encontrada pela natureza para as situações de importância vital que se repetiram ao longo da evolução. Quantos bilhões de vezes na história da humanidade não ocorreram situações de perigo, de perda, de ofensa, de sofrimento, de sucesso? O raciocínio subjacente a esta hipótese é simples. Se encontramos as reações emocionais em ordem crescente de complexidade nos animais e se elas atingem o máximo de complexidade e sofisticação no ser humano, o ápice da evolução orgânica no planeta, é porque elas foram testadas e passaram pelo teste da “escola evolucionária”. Representam respostas estratégicas adequadas encontradas para a solução de problemas cruciais da espécie humana. Por isso permaneceram e por isso marcam a vida humana.

Uma palavra de cautela faz-se necessária aqui. Considerar as emoções como resultantes de processos bio-evolucionários não significa de forma alguma que o ser humano possa ou deva ser reduzido à sua dimensão biológica. Reduzir o humano ao biológico é tão inadequado epistemologicamente quanto o é deixar de incluir a dimensão biológica em qualquer tentativa de compreensão ampla. No que concerne às emoções, muitas outras dimensões são essenciais. Além da biológica, somos resultado de uma evolução mental e cultural, tanto no que se refere à filogenia quanto à ontogenia.

Mas, retornando à argumentação anterior, apesar de sofrerem influência da cultura, as reações emocionais básicas são inatas. Elas podem ser provocadas ou evocadas pelo ambiente, mas não são criadas por ele. Sem entrar nos detalhes da polêmica existente a esse respeito, creio que basta por enquanto um argumento simples: ninguém ensina ninguém a sentir. Ninguém jamais diz a uma criança: “olhe, é assim que você sente medo, que sente raiva, que sente alegria ou tristeza”. Aí se criou um pouco de confusão, porque aquilo que provoca a emoção pode ser aprendido, mas a reação, a emoção em si, é inata, faz parte do nosso potencial humano. A criança vai aprender de quê ter medo, mas o medo em si não é aprendido, nem a alegria, nem a tristeza.

Essas reações inatas, que variam de espécie para espécie, são como um presente da natureza que recebemos ao iniciar a vida. Nós já nascemos com a capacidade e a predisposição para reagir com determinada emoção diante dos acontecimentos mais significativos da existência. As respostas mais adequadas para aquelas situações que se repetiram ao longo da evolução orgânica foram, vamos dizer assim, incorporadas ao organismo humano. Cada emoção, desde que não tenha sido distorcida, é a resposta mais apropriada que a natureza encontrou para lidar com determinadas situações relevantes.


Categorias gerais de situações desencadeadoras


Cada um desses tipos de situação constitui um tema, um padrão situacional genérico que desencadeia a emoção. Cada emoção é uma reação a um desses temas, a um determinado tipo de situação que no decorrer da evolução se tornou um sinal emocional, um gatilho que desencadeia a reação emocional. Quando ocorre uma mudança na realidade e uma dessas situações se manifesta, o organismo responde também com uma mudança, adequando-se e preparando-se para enfrentar a nova situação. O sinal emocional coloca o organismo inteiro num modo particular de funcionamento e o mantém aí enquanto perdura.

Como vimos, a raiva é uma reação a uma situação que envolve uma frustração, um obstáculo julgado intransponível, uma ofensa ou desdém.. Diante da situação de ofensa, frustração ou obstáculo, a pessoa se enraivece. Além do sentimento subjetivo característico, o corpo reage com uma série de modificações fisiológicas que o tornam mais forte. Há uma descarga de nor-adrenalina, instala-se um estado de alerta. O coração bate mais intensamente para enviar mais sangue para os músculos. Essas reações físicas não têm nada de irracional ou de inadequado. Todas são modificações que fortalecem o organismo e contribuem para a superação do obstáculo ou para a luta em defesa própria. Então, de início, a raiva natural, isto é, aquela que está exercendo sua função biológica natural, é uma reação apropriada neste contexto específico.

Essa é uma característica geral das emoções. Elas criam um impulso para a ação adequada e, ao mesmo tempo, nos preparam para tal ação. O medo é a reação adequada ao perigo, porque ele vai nos tornar atentos ou nos fazer fugir. Imagine a quantas situações perigosas uma criança iria expor-se se não tivesse medo. Com o medo, ela se protege e tem mais chances de sobreviver. Quando a criança nasce, ela traz já em si, inscrita na sua estrutura biológica, essa relação entre o padrão situacional genérico e a reação, isto é, entre a constatação de perigo e a reação de medo. A quais situações específicas ela vai reagir, isto é, quais situações ela vai avaliar como perigosas, isso dependerá em grande parte da aprendizagem, mas sempre que a situação se encaixar no padrão, sempre que for considerada perigosa, provocará a reação emocional de medo.

Assim, as relações genéricas entre a emoção e o tema que a provoca são inatas, enquanto as específicas são aprendidas. Entretanto, mesmo algumas das específicas são inatamente capazes de desencadear a emoção. Um exemplo é a reação de medo que as crianças apresentam, desde o nascimento, diante de algumas situações. Se você pegar um bebê e deixá-lo cair de repente, ele reagirá com medo, como também o fará diante de um barulho súbito ou de um estímulo doloroso. Isso indica que tais situações específicas (a queda brusca e o barulho súbito) já apresentam as características inatamente determinadas para desencadear o medo. Elas são identificadas como perigosas e instigam a reação de medo antes mesmo de qualquer aprendizagem.
Quais e quando outras situações são perigosas, ele deverá aprender gradativamente, muitas vezes de forma dolorosa. Esse início quase totalmente em aberto é, obviamente, uma característica humana que se manifesta em muitas áreas e é bom que seja assim. Devido a ela, a criança não fica restrita a um conjunto de padrões fixos, tendo que aprender apenas o que for realmente importante para sua sobrevivência e realização no meio em que vive. É essa flexibilidade extrema que permite ao ser humano adaptar-se a - e adaptar a si - qualquer ambiente, do Saara ao Pólo Norte, do Conselho Tribal ao Senado da República.

De início, a criança pequena enfia a mão na boca de um cachorro com a maior tranqüilidade. Mordida uma vez, aprende. O organismo, à medida que se desenvolve, vai aprendendo a identificar e a evitar as diversas situações de perigo. Aos poucos, centenas de situações, além daquelas iniciais, passam a provocar medo. Obviamente, essa aprendizagem varia de lugar para lugar, de época para época, de cultura para cultura e, enfim, de pessoa para pessoa. Cada ambiente, cada sociedade, cada família e cada existência individual tem seus próprios perigos, e suas formas de enfrentá-los. Os perigos de uma cidade grande não são os mesmos encontrados numa fazenda. O que é perigoso para Maria não o é necessariamente para João.

Infelizmente, o próprio processo de aprendizagem é repleto de perigos e nem tudo acontece como devia. Além dos acidentes e imprevistos, o erro, a impropriedade e a ignorância humanas, como sempre, fazem-se presentes. Como conseqüência, deparamo-nos com o surgimento de medos impróprios e prejudiciais. Aí a emoção não está mais exercendo a função protetora para a qual se desenvolveu, mas exatamente o seu oposto. É o que acontece nos casos de fobia, de pânico, de pessoas que se amedrontam em situações que realmente não são perigosas, de outras vivendo em estado quase constante de ansiedade, etc. Tais condições indicam um distúrbio, ou uma aprendizagem inadequada, problemas que devemos abordar posteriormente, depois de termos examinado e compreendido um pouco mais a emoção em seu estado natural, sem distorções.

Vejamos outros exemplos de como cada uma delas é uma reação a determinado padrão situacional. Quando se fica alegre? São muitas as situações que nos deixam alegres, mas existe um padrão genérico também para a alegria. Nós ficamos alegres quando estamos conseguindo os nossos objetivos, conseguindo algo que desejamos, seja algo material, seja nas relações com outros, seja em nosso mundo interior.

E a compaixão, a pena? Em condições normais, uma pessoa emocionalmente saudável reagirá com compaixão ao sofrimento do outro. Essa parece ser uma característica humana universal. A dor alheia causa compaixão e sua intensidade varia proporcionalmente ao grau de intimidade e de afeto. O sofrimento real do outro é o padrão situacional que evoca a compaixão. Quando deixa de evocar, é que a capacidade de sentir plenamente já foi corrompida, negada ou distorcida no duro embate com a vida.

E a culpa? A culpa vai surgir diante da constatação de que fizemos algo errado. É claro também que o que é considerado errado dependerá, não sempre, mas na maioria das vezes, de fatores culturais, variando de lugar para lugar, de época para época, mesmo de pessoa para pessoa. Mas, desde que alguém julgue que fez algo errado, a reação emocional será a culpa. Nem é preciso dizer como isso é racional e útil, porque, se as pessoas não sentissem culpa, continuariam a fazer as coisas erradas. O sentimento de culpa tem a função de regular o comportamento humano de adequá-lo à vida em comunidade.

A Tabela III mostra as relações entre alguns padrões situacionais genéricos, que funcionam como gatilhos emocionais, e as emoções que constituem as reações usuais a eles. Estes são gatilhos emocionais de segunda ordem. Os de primeira ordem, isto é, os mecanismos puramente biológicos que possibilitam a atuação destes padrões como ativadores emocionais, serão descritos posteriormente.

Emoção

Padrão Situacional Desencadeante

(gatilho emocional de segunda ordem)

Raiva

Uma ofensa, ameaça ou obstáculo

Ansiedade

Uma ameaça incerta

Medo

Perigo

Culpa

Transgressão de uma norma moral aceita pela pessoa

Tristeza

Experiência de perda irreparável

Alegria

Progresso em direção à realização de um objetivo

Amor

A excelência; desejo de participar da afeição e prazer recíprocos

Compaixão

Sofrimento do outro

Vergonha

Transgressão de uma norma cultural/invasão da intimidade

Surpresa

Algo inesperado

Partindo desse quadro, tentemos esclarecer algumas relações entre o pensamento, a aprendizagem e as emoções. Há muitas situações na vida em que a pessoa tem tempo para observar, reunir dados e raciocinar antes de concluir que está diante de um perigo, de uma ofensa, etc. Mas há outras situações em que tais atividades mentais prévias tornam-se impossíveis, pois a resposta emocional deve ser imediata, sob o risco de ser ineficiente. Aí, em prol da eficiência, entram em jogo, simultaneamente, certas características inatas da estrutura biológica do organismo e os resultados de sua aprendizagem anterior. Vejamos mais detalhadamente como a aprendizagem e o pensamento se relacionam com as emoções


Realidade e emoção

Em geral, cada emoção segue-se a uma avaliação da realidade. É, portanto, uma conseqüência do sentido que atribuímos a determinada situação e do seu reconhecimento como sendo um daqueles temas desencadeadores ou ativadores da emoção. A avaliação é o processo através do qual realizamos a identificação do tema, processo que pode ocorrer de forma lenta, minuciosa, precisa, raciocinada, mas que, também, dependendo das exigências do momento, pode se completar de forma muito rápida, levando a uma reação imediata, quase automática, ao menor sinal da presença do gatilho emocional. Esta última forma é o que Magda Arnold (1968) já tinha chamado de julgamento sensorial, que é “direto, imediato, não refletido, não intelectual”. A rapidez com que certas reações emocionais ocorrem, e com que precisam ocorrer, exige uma avaliação também rápida.

Tanto a avaliação quanto a reação emocional, entretanto, podem ser corretas ou incorretas. Para facilitar uma apreensão global, consideremos: se combinarmos avaliação/emoção com as alternativas correta/incorreta, teremos quatro e apenas quatro possibilidades, como no Esquema I:

Esquema I:

A peça da Figura 13, um rosto formado por duas metades, será utilizada como auxiliar na exposição que se segue sobre as quatro relações possíveis entre avaliação e emoção. Ela é útil porque pode ser dividida em duas partes distintas que, juntas, formam um rosto e representam a primeira possibilidade.

1. avaliação correta -> emoção correta

Fig. 13

A primeira possibilidade é que a pessoa faça uma avaliação correta (representada aqui por um lado da peça) e que a emoção também seja correta (a outra parte da peça). As duas estão integradas e podemos perceber a forma de um rosto. Nesse caso, não existe absolutamente nenhuma oposição entre razão e emoção. Uma mudança na realidade desencadeia uma reação apropriada no organismo. Como vimos, se a situação for de perigo, a reação adequada será o medo. Se for sofrimento do outro, será compaixão, se for perda, será tristeza, e assim por diante. A emoção é a resposta mais adequada àquela situação, de acordo tanto com as características da natureza biológica humana quanto com as exigências lógicas da realidade.

2. avaliação incorreta -> emoção correta

Fig. 14

Mas temos uma outra possibilidade: a avaliação incorreta (Fig. 14 - um lado da peça caído) e a emoção correta. São extremamente comuns as situações deste tipo. Alguém andava distraído por uma trilha quando viu algo no chão parecido com uma cobra. Imediatamente deu um salto, teve medo. A reação emocional foi correta. Depois, observando melhor, percebeu que se tratava apenas de um graveto movido pelo vento. De fato, o cérebro emocional faz constantemente esse tipo de avaliação rápida. Claro, se, numa situação de perigo provável como essa, antes de sentir e agir a pessoa parasse para pensar....... será que é mesmo uma cobra, tem cor de cobra, tem jeito de cobra, mas pode ser graveto, cipó ou ......... a cobra já a teria picado.

Geralmente os estímulos que chegam a nós são avaliados através dos processos usuais de pensamento, realizados pelo córtex cerebral. Mas o cérebro pode saber que algo é bom ou mau antes de saber exatamente de que se trata, como têm demonstrado os neurocientistas contemporâneos (Le Doux, 1995). Há uma parte do sistema nervoso, chamada amígdala, responsável pelas reações emocionais de medo, que processa o estímulo rapidamente antes de ele passar pelo córtex – portanto, pelo crivo do pensamento, pela avaliação racional detalhada – e desencadeia a reação emocional. Sua estrutura e funcionamento constituem o fundamento neurobiológico para o já mencionado “julgamento sensorial”.

A amígdala é uma pequena estrutura em forma de amêndoa, situada no lobo temporal do cérebro, que faz parte do Sistema Límbico (1). Ela é uma estrutura complexa, formada por dez núcleos neuronais distintos e funciona como mediadora das respostas emocionais inatas e das aprendidas, das conscientes e das inconscientes. Está conectada a diversas áreas cerebrais, como o hipocampo, os núcleos septais e o núcleo dorso-medial do tálamo. Muitos aspectos da expressão emocional são coordenados pela amígdala através de suas conexões com o hipotálamo e com o sistema nervoso autônomo; ela influencia os sentimentos conscientes através de suas projeções para o córtex pré-frontal. Essas conexões garantem seu importante desempenho na mediação e controle das atividades emocionais, principalmente, nos estados de medo e de raiva. A amígdala é fundamental para a auto-preservação, por ser um centro identificador de perigo, colocando o organismo em situação de alerta e preparando-o para fugir ou lutar.

A destruição experimental das amígdalas (são duas, uma em cada um dos hemisférios cerebrais) faz com que um animal se torne dócil, incapaz de discriminar seus parceiros sexuais naturais (por exemplo, ele tentar copular com animais do mesmo sexo, ou de outra espécie), afetivamente descaracterizado e indiferente às situações de risco.

A estimulação elétrica dessas estruturas provoca crises de violenta agressividade. Em seres humanos, um tumor comprimindo a amígdala pode fazer com que a pessoa seja dominada por um ódio incontrolável. Uma lesão da amígdala faz, entre outras coisas, com que o indivíduo perca a capacidade de captar o sentido emocional de uma informação vinda de fora, como a visão de uma pessoa conhecida. Ele sabe quem está vendo, mas não sabe se gosta ou desgosta da pessoa em questão.

Um estímulo sensorial, por exemplo, um som, ao atingir o organismo, é direcionado inicialmente do órgão receptor para o tálamo e depois para a amígdala e para o córtex. Do tálamo ele chega à amígdala em 15 milisegundos e do tálamo ao córtex em 25 milisegundos. Dessa forma, a amígdala pode criar uma resposta emocional antes mesmo de o córtex receber o sinal e começar a processá-lo.

Mas ela tem uma capacidade limitada para discriminar entre os vários estímulos, entre as várias situações desencadeadoras de emoções. Em comparação com o córtex, a amígdala é como um computador primitivo. Só é capaz de realizar uma avaliação (para identificar o padrão que constitui o ativador emocional) de forma grosseira e sujeita a erros. Esse “julgamento sensorial” é menos preciso que o intelectual. Tem, porém, a vantagem da rapidez. É ele que nos permite saltar com rapidez ao som de uma buzina atrás de nós numa rua movimentada, salvando nossa vida se se tratar de um carro desgovernado. Em seguida, o córtex executa seus processos cognitivos mais refinados e fornece à amígdala informação para uma reação mais adequada ao mesmo sinal sensorial. O Esquema II é uma representação sumária, de acordo com LeDoux, dos dois caminhos que os estímulos sensoriais podem percorrer até serem identificados como gatilhos emocionais e desencadear as reações apropriadas: a via longa (tálamo-córtex) e a via curta (tálamo-amígdala).

Esquema II:

Os sinais que identificam as situações como perigosas são gravados e utilizados diretamente pela amígdala. Daí o fato de o pensamento por si só ser geralmente incapaz de inibir uma reação emocional aprendida. Por isso, em tantas situações não funciona a tentativa de nos acalmar apenas nos convencendo que não há motivo racional para ter medo, por exemplo. Se a amígdala identificou um sinal inato ou aprendido de perigo, a reação segue-se automaticamente, independentemente do desacordo da razão. A capacidade dos processos corticais de inibir as reações da amígdala são limitadas. As funções ligadas à sobrevivência são prioritárias e há mais conexões nervosas indo da amígdala para o córtex que do córtex para amígdala.

Retornando ao nosso exemplo inicial, depois de ter reagido emocionalmente e saltado, a pessoa percebeu que era apenas um graveto e não uma cobra. A avaliação anterior (a imediata, da amígdala) tinha sido incorreta, e agora é substituída pela correta (realizada pelo córtex, pelos processos usuais de pensamento). Ela pode se acalmar e continuar o passeio, porque a amígdala também modificou sua avaliação e agora está de acordo com o córtex. Não há perigo no graveto nem para a amígdala, nem para o córtex. Se não estivessem de acordo - como numa situação em que uma pessoa que tem uma fobia de cobra é convidada a tocar numa depois de informada que o réptil é inofensivo - a reação de medo persistiria. A reação da amídala prevalece.

No caso da trilha, a avaliação tinha sido incorreta, mas a emoção fora correta, já que era uma reação à possibilidade de um perigo real.

Num outro exemplo, um marido retorna à casa com uma sugestiva marca vermelha no pescoço; a esposa vê a marca e tem uma reação de ciúme ou de raiva. Depois, é convencida de que realmente era apenas um arranhão acidental, nada do que tinha pensado antes, e se acalma. De novo, a reação emocional imediata fora correta. O erro estava na avaliação e tinha que ser corrigido por uma avaliação mais precisa.

3. avaliação correta -> emoção incorreta

Fig. 15

E podemos ter o contrário, também tão inadequado quanto o caso anterior. A avaliação é correta, mas a reação emocional é incorreta (Fig. 15 - o outro lado da peça caído). Por exemplo, uma pessoa que tenha sido repetidamente ofendida e que não tenha expressado sua raiva, diante de uma pequena ofensa posterior pode reagir de forma absolutamente desproporcional. A emoção estava “acumulada”, isto é o gatilho estava já armado e agora basta um pequeno estímulo para desencadear a reação emocional. De novo, milhares de vezes na vida vamos nos deparar com reações desse tipo nas pessoas chamadas de “nervosas”, que apresentam sempre uma emotividade excessiva.

Outras vezes a pessoa não consegue suportar uma perda ou uma separação porque os sentimentos provocados por perdas anteriores não tinham sido vividos plenamente nem elaborados. Então a reação emocional agora é excessiva, ou é de novo negada. A pessoa, nesses casos, consegue avaliar a realidade de forma adequada, mas a reação a essa realidade é inadequada.

Uma outra possibilidade ainda é que a reação emocional esteja distorcida e a pessoa sinta medo quando devia sentir raiva (ou vice-versa), ou que ria quando deveria chorar. Ela pode, por exemplo, avaliar corretamente a situação como sendo uma ofensa, mas reagir com medo em vez de raiva. Ou perceber claramente que houve uma perda, mas reagir com um riso descontrolado, como às vezes acontece num velório. Essa possibilidade será examinada mais adiante quando falarmos das emoções secundárias.

4. avaliação incorreta -> emoção incorreta

Fig. 16

E nós temos uma quarta possibilidade, que é a pior delas. Nesse caso, nem se pode saber que o rosto é um rosto, pois a totalidade não se forma (Fig. 16 - os dois lados da peça caídos). A avaliação é incorreta e a emoção também é incorreta. Um exemplo é a paranóia, em que a pessoa não só avalia a realidade incorretamente mas também reage de uma forma inadequada. Alguém está me perseguindo, ela acha, quando de fato não está. A avaliação é incorreta e a reação emocional também é incorreta, porque costuma ser uma reação muito violenta, ou de pânico total. Esse é um caso extremo. Nos casos menos extremos, da vida comum, nós encontramos muitas situações semelhantes, em que as pessoas avaliam inadequadamente a situação (devido a crenças errôneas, falta de informação, raciocínios falsos, etc.) e também reagem de forma emocionalmente inadequada (por excesso, por falta ou por distorção), como quando alguém se sente injustiçado ou traído, sem o ter sido, e reage de forma exageradamente violenta.

Enfim, as pessoas desenvolvem distúrbios, neuroses, estresse, doenças, etc., porque se enganam num ou noutro aspecto, na avaliação ou na resposta emocional. Uma avaliação correta ou incorreta da situação vai depender de vários fatores, com freqüência da cultura, que determina muitos de nossos valores. Ela indica aquilo que devemos temer, de que devemos nos envergonhar, o que devemos odiar, quando devemos nos sentir tristes, etc. Mas, independentemente de a origem ser a cultura ou a experiência, feita a avaliação, isto é, uma vez identificada a situação como de perigo, de ofensa, de perda, de erro moral, etc., a resposta emocional correta é determinada pela natureza. Trata-se de algo que não depende mais de nossa vontade nem dos nossos valores.


Universalidade das emoções básicas

Se as emoções são inatas, se são o resultado do desenvolvimento da espécie, elas deverão necessariamente ser as mesmas em todas as culturas. Entretanto, como não são provocadas, em diferentes sociedades, pelas mesmas situações específicas, chegou-se a pensar, e muitos ainda pensam, que fossem prioritariamente resultantes da aprendizagem. Aquilo que provoca raiva, medo, tristeza varia de uma cultura para outra, mas em todas encontramos raiva, medo, tristeza, etc., e os padrões genéricos que as desencadeiam são os mesmos.

Poucos teóricos hoje questionariam a tese de que as emoções têm uma base biológica e de que constituem parte de nossa herança filogenética. Entretanto, ainda há muito debate sobre o grau em que os vários aspectos do funcionamento emocional estão inscritos na estrutura fisiológica ou são produto da cognição e da cultura. No geral, encontramos duas posições.

Uma é mais nativista/funcionalista e acentua as propriedades funcionais ou adaptativas da emoção. De acordo com esse modelo, as emoções são inatas, universais e desenvolvem-se com a maturação do organismo. Esses teóricos acentuam que as emoções são parte da herança comum aos mamíferos, estão voltadas para a adaptação ao ambiente e têm como função criar as condições para que o organismo atinja objetivos específicos.

Para o segundo grupo, os cognitivistas/construtivistas, as emoções dependem simultaneamente da maturação e da atividade cognitiva e, portanto, seriam “construídas” no desenvolvimento social. Eles tendem a ignorar ou a dar menos ênfase aos aspectos inatos em favor do foco sobre as emoções como construção social, isto é, preocupam-se mais com as formas como a cultura modula as reações emocionais.

De fato, nós continuamos com as duas tradições identificadas pelo françês Ribot no início do século, a fisiológica e a intelectualista. Entretanto, a dicotomia entre os dois grupos não é radical, mas encontra-se apenas na ênfase diferenciada que cada grupo coloca sobre as respostas inatas ou sobre as elaborações cognitivas e influências sociais. Na realidade, as influências atuam de forma circular. As emoções humanas determinam o desenvolvimento da cultura e esta atua sobre as manifestações emocionais.

As idéias, as concepções de mundo e os valores, pertencentes ao nível cognitivo, são variáveis e aprendidos, mas as emoções, pelo menos as básicas, são inatas e semelhantes em todas as culturas. Nós todos nascemos com a capacidade de ter os mesmos sentimentos elementares e de expressá-los da mesma forma. Em todo o mundo humano, as emoções básicas são as mesmas: raiva, alegria, tristeza, afeição, medo, surpresa.... Chinês ou esquimó, italiano ou brasileiro, o ser humano é idêntico no que se refere a este aspecto. Aqui ou entre os pigmeus nossas emoções são a mesma coisa, têm o mesmo sentido e parecem ter o mesmo “sabor” subjetivo. As idéias e os valores dos pigmeus são absolutamente diferentes das nossas em quase tudo. Mas são nossos irmãos no sentimento. Também eles, e isto nos permite compreendê-los, sentem medo, amor, alegria e tristeza como nós, ainda que freqüentemente diante de situações diferentes.

As pesquisas científicas atuais favorecem a hipótese da universalidade das emoções. O trabalho de Paul Ekman (1987, 1994), um estudo imenso que incluiu sujeitos de dez culturas (Estônia, Turquia, Japão, Grécia, Sumatra, Itália, Estados Unidos, etc.), apresenta resultados consistentes que confirmam as idéias de Charles Darwin (I872/1998) a esse respeito. Ekman demonstrou que há um pequeno número de emoções básicas, primárias ou prototípicas. Em todas as culturas estudadas, as pessoas foram capazes de identificar as mesmas emoções em expressões faciais mostradas a elas em fotografias.

Também Shaver (1992) e seus colegas questionaram a noção sócio-construtivista de que as emoções são diferentes nas várias culturas. Apesar das várias diferenças aparentes, todas as culturas estudadas até agora mostram um grau impressionante de similaridade nos significados dos termos que usam para descrever as emoções e nos padrões genéricos que as provocam. Também as observações empíricas de crianças que nasceram cegas e surdas revelam que elas apresentam toda a variedade de expressões emocionais básicas (Joseph, 1996, p.327), o que constitui mais um argumento sólido contra a possibilidade de que essas expressões tenham sido aprendidas e, portanto, de que as emoções sejam “construídas” por diferentes contextos culturais.

Referências

ARNOLD, Magda (Ed.) The nature of emotion. Baltimore: Penguin, 1968.

EKMAN, P. et al. Universals and Cultural Differences in the Judgements of Facial Expressions. Journal of Personality and Social Psychology, 53, 712-717, 1987.

_______, Strong Evidence For Universals in Facial Expressions. Psychological Bulletin, 115, 268-287, 1994.
JOSEPH, Rhawn. Neuropsychiatry, neuropsychology, and clinical neuroscience. London: Williams and Wilkins, 2nd. Ed., 1996.

LeDoux, Joseph E. In search of an emotional system in the brain. In E. Gazzaniga (Ed.), The Cognitive Neurosciences. Cambridge: MIT Press, 1995.

SHAVER, P. et al., Cross-Cultural Similarities and Differences in Emotion and its Representation. In M. S. Clark (Ed.) Emotion. Newbury Park, CA: Sage, 1992.